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Cuidado: Crianças em extinção!



 Faz tempo que quero escrever sobre este tema, mas deixava sempre para depois. 

Porém, recentemente um dos meus filhos sofreu um bullying invisível, e fiquei tão chocada que o assunto não saiu mais do meu coração.  

É uma tristeza confirmar minhas elucubrações de forma tão cruel, mas a verdade é que “AS CRIANÇAS ESTÃO EM EXTINÇÃO!” 

Primeiro contarei o caso, para depois refletir sobre questões mais profundas.

Eu e meus filhos estávamos num restaurante popular e íamos lavar as mãos. Para chegar ao banheiro precisávamos passar por um corredor cheio de mesas, com algumas delas já ocupadas. 

Então o mais velho, na essência e vigor dos seus quatro anos, ia pulando, cantando e cutucando cada mesa. Quando a mesa estava vazia ele apertava um botão invisível bem no meio, quando havia alguém sentado ele apertava suavemente o braço da pessoa. 

Muitas pessoas se assustavam, afinal não esperavam serem tocadas em seu corpo bem na hora do almoço, muito menos por uma criança. Mas, assim que percebiam o que estava acontecendo, elas riam e achavam engraçado.

Ele continuou concentrado no seu brincar, até que fez a mesma coisa no braço de um homem de aproximadamente quarenta e cinco anos, que almoçava junto de uma mulher talvez da mesma idade. O homem não se manifestou, mas eu percebi seu aborrecimento. Pedi desculpas. Meu filho nem escutou, porque a essa altura já havia entrado no banheiro.

Ao voltar, depois de alguns minutos e com o sucesso da sua brincadeira, claro que ele quis repeti-la, e foi nas mesmas pessoas, que já estavam bem mais abertas para essa troca social. 

Acontece que aquele homem se levantou depois de ser tocado novamente e disse que meu filho era um chato, que eu deveria educá-lo e controla-lo, pois onde já se viu seu almoço ser interrompido por uma criança desagradável.

Fui pega de surpresa e claro que não pensei rápido, apenas sorri e novamente pedi desculpas. 

Meu filho mais uma vez não acompanhou o processo daquele homem, porque já que estava quase chegando à nossa mesa, que ficava bem longe dali. 

Meu coração palpitou rápido, numa mistura de ódio do homem e raiva de mim mesma por não ter me manifestado com vigor, e porque somente depois de uns passos que veio à minha mente todo um discurso passional (e racional) que deixei de fazer em defesa do meu filho, e de todas as crianças que surgirão no caminho daquela “criatura hominídea”.

Me deu vontade de responder que meu filho era chato, assim como ele, porém quando se trata de um adulto os nomes são outros: rabugento, ranzinza, macambuzio, sem graça, ranheta, mal-humorado!

Me deu vontade de falar que eu tinha dó dele, porque provavelmente sua infância foi infeliz e ele tenha sido uma criança muito podada, obrigada a ser um mini adulto. Que o riso não fazia parte da convivência familiar, onde suas ideias, historias e descobertas não eram importantes para ninguém.

Me deu vontade de dizer que uma pessoa se torna amarga somente quando sua vida é sufocada dentro da energia da angústia, ao ponto de nada restar, a não ser a prepotência de se achar melhor que a grande maioria das pessoas, se dando ao direito de criticar ferozmente alguém que ele acha ser inferior. Uma ilusão que dói.

Mas a realidade, que é bem mais cruel que esta história, é que ao nosso redor existem muitos homens e mulheres iguais. E pior, muitos pais e mães na mesma situação de amargura com a própria vida.

Entendo perfeitamente que uma pessoa que cresceu dentro da falta (de amor, atenção, respeito, confiança) dificilmente terá uma realidade contrária para oferecer aos seus filhos. 

E, infelizmente, vejo isso quase todos os dias nos parquinhos e outros espaços públicos que frequento com meus filhos.

Nem mesmo nos locais que por natureza dão oportunidade a experimentação, descobertas, entusiasmo, risos, brincadeiras, nem mesmo ali as crianças têm permissão para serem elas mesmas.

Às crianças não é mais permitido (ou talvez nunca tenha sido) serem autênticas, brincalhonas, manifestantes reais de seus sentimentos.

Mas é urgente entender que as crianças brincam! 

As crianças brincam em qualquer hora e qualquer lugar!

E isso é absolutamente natural e verdadeiro!

Mas a criança não fica quieta de forma natural, não obedece de forma natural, não silencia de forma natural, ela só faz tudo isso se for coagida. 

Uma criança só para de brincar se for forçada a isso, se for constrangida a aceitar que ela atrapalha a sociedade, que as coisas que ela faz são inadequadas ao mundo (adulto).

Já vi pais pedirem para seus filhos não rirem porque poderia incomodar as outras crianças que também estão no parquinho (brincando!).

Onde chegamos?

Chegamos ao ponto crítico, onde falta muito pouco para matarmos definitivamente as crianças e colocá-las em extinção! 

Muitas vezes, quando estou nos parquinhos, vejo os pais envolvidos com seus problemas ou limitações, entregues aos celulares ou reflexões, e que não se envolvem com atenção nas demandas dos seus filhos.

Não estou falando aqui para os pais e mães virarem artistas de circo (nada contra, hein!) e entreterem seus filhos sistematicamente com momentos lúdicos. 

Não é isso!

Mas é, no mínimo, deixar que elas sejam crianças. É não atrapalhar a verdade lúdica que existe dentro delas. É permitir que façam aquilo que nós não temos mais coragem de fazer: brincar na vida.

Nós adultos estamos tão travados, tão mortos, tão sem graça, que somente criando filhos iguais a nós (macambúzios) seremos absolvidos na nossa própria ilusão de felicidade, ou, na ilusão que esconde a infelicidade.

Se queremos um mundo melhor para nossos filhos e para todas as outras pessoas, devemos deixar realmente que as crianças sejam crianças, porque corre o risco de, a cada nova geração, aumentar o número de pessoas irritadiças, infelizes, superficiais, implicantes e intolerantes.

Acredito que uma coisa todos concordam, que a fase da infância é a mais gostosa que já vivemos. Então vamos deixar eles terem boas memorias dessa época ao invés de terem impregnados na sua alma os inúmeros “nãos” para as coisas tão saudáveis e inocentes.

Precisamos relaxar mais desse mundo adulto chato, em nome de uma vida de risos e suavidades.

Raramente vejo momentos familiares cercados de gargalhadas, mas sim cercados de regras sufocantes.

São tanto nãos, nãos, nãos, nãos, para tantas coisas, que na minha mente aparece a imagem de cientistas programando seus robozinhos e permitindo que, no máximo, eles realizem umas dez funções, sendo que a máquina real na sua frente é muito mais complexa e cheia de possibilidades de se tornar alguém melhor que o seu criador.

E não estou falando de exemplos já “manjados” como “Sai daí para não sujar sua roupa!”, estou falando de regulações mais profundas, que marcam muito mais a personalidade de uma criança.

Estou falando das inúmeras limitações do “poder infantil”, do poder ser, imaginar, se soltar, criar, desfazer. De viver ontologicamente aquilo que é verdadeiro. 

Mas infelizmente estamos colocando nas crianças máscaras sociais, e desde pequenos elas aprendem a ser qualquer coisa milimetricamente arranjada, para ser aceita pelos demais adultos, porque na verdade a criança não tem preconceitos inatos, e com certeza não traz a ideia que será melhor se for regrada, para ser considerada adequada ao mundo construído do adulto.

Não deixem as crianças entrarem em extinção.








3 COMENTÁRIOS:

Triste e real :-(

Incrivelmente hoje por coincidência, fui a um PSF - posto de saúde da família, fiquei mais de uma hora lá com meu filho de 4 anos e nenhuma das pessoas sequer olhou para ele, era como se ele não existisse, médicos, enfermeiros, atendentes pareciam não notar a existência dele. Passei o dia com uma tristeza, raiva e inconformada.

Amei sua reflexão, mais uma vez maravilhosa Lesly. Obrigada

Por isso que os eletronicos e desenhos fazem tanto sucesso, deixam as crianças quietinhas iguais surdos mudos cegos

Muito triste mesmo, cortou meu coração... mas, ao mesmo tempo que foi uma experiência negativa para você e, infelizmente, também para o intolerante Sr. Ranzinza, foi uma experiência super positiva para todas aquelas outras pessoas que foram tocadas pelo Tistu do seu filhote (quiçá inesquecível para alguns)... depois que passa a raiva (porque ela é inevitável), o amor deve tomar conta dos nossos pensamentos e atitudes. Seu filho é maravilhoso. Especial mesmo, eu diria... um abraço!



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