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Apresentando os Números

Havia muito tempo que desejava apresentar os números oficialmente ao Tatá...

Tintas Comestíveis

Tintas comestíveis são sempre uma boa pedida para momentos divertidos...

Caminho Psicomotor

Você já viu um brinquedo que traz a ideia de estar caminhando por uns troncos de árvores?

Cuidado: Crianças em extinção!



 Faz tempo que quero escrever sobre este tema, mas deixava sempre para depois. 

Porém, recentemente um dos meus filhos sofreu um bullying invisível, e fiquei tão chocada que o assunto não saiu mais do meu coração.  

É uma tristeza confirmar minhas elucubrações de forma tão cruel, mas a verdade é que “AS CRIANÇAS ESTÃO EM EXTINÇÃO!” 

Primeiro contarei o caso, para depois refletir sobre questões mais profundas.

Eu e meus filhos estávamos num restaurante popular e íamos lavar as mãos. Para chegar ao banheiro precisávamos passar por um corredor cheio de mesas, com algumas delas já ocupadas. 

Então o mais velho, na essência e vigor dos seus quatro anos, ia pulando, cantando e cutucando cada mesa. Quando a mesa estava vazia ele apertava um botão invisível bem no meio, quando havia alguém sentado ele apertava suavemente o braço da pessoa. 

Muitas pessoas se assustavam, afinal não esperavam serem tocadas em seu corpo bem na hora do almoço, muito menos por uma criança. Mas, assim que percebiam o que estava acontecendo, elas riam e achavam engraçado.

Ele continuou concentrado no seu brincar, até que fez a mesma coisa no braço de um homem de aproximadamente quarenta e cinco anos, que almoçava junto de uma mulher talvez da mesma idade. O homem não se manifestou, mas eu percebi seu aborrecimento. Pedi desculpas. Meu filho nem escutou, porque a essa altura já havia entrado no banheiro.

Ao voltar, depois de alguns minutos e com o sucesso da sua brincadeira, claro que ele quis repeti-la, e foi nas mesmas pessoas, que já estavam bem mais abertas para essa troca social. 

Acontece que aquele homem se levantou depois de ser tocado novamente e disse que meu filho era um chato, que eu deveria educá-lo e controla-lo, pois onde já se viu seu almoço ser interrompido por uma criança desagradável.

Fui pega de surpresa e claro que não pensei rápido, apenas sorri e novamente pedi desculpas. 

Meu filho mais uma vez não acompanhou o processo daquele homem, porque já que estava quase chegando à nossa mesa, que ficava bem longe dali. 

Meu coração palpitou rápido, numa mistura de ódio do homem e raiva de mim mesma por não ter me manifestado com vigor, e porque somente depois de uns passos que veio à minha mente todo um discurso passional (e racional) que deixei de fazer em defesa do meu filho, e de todas as crianças que surgirão no caminho daquela “criatura hominídea”.

Me deu vontade de responder que meu filho era chato, assim como ele, porém quando se trata de um adulto os nomes são outros: rabugento, ranzinza, macambuzio, sem graça, ranheta, mal-humorado!

Me deu vontade de falar que eu tinha dó dele, porque provavelmente sua infância foi infeliz e ele tenha sido uma criança muito podada, obrigada a ser um mini adulto. Que o riso não fazia parte da convivência familiar, onde suas ideias, historias e descobertas não eram importantes para ninguém.

Me deu vontade de dizer que uma pessoa se torna amarga somente quando sua vida é sufocada dentro da energia da angústia, ao ponto de nada restar, a não ser a prepotência de se achar melhor que a grande maioria das pessoas, se dando ao direito de criticar ferozmente alguém que ele acha ser inferior. Uma ilusão que dói.

Mas a realidade, que é bem mais cruel que esta história, é que ao nosso redor existem muitos homens e mulheres iguais. E pior, muitos pais e mães na mesma situação de amargura com a própria vida.

Entendo perfeitamente que uma pessoa que cresceu dentro da falta (de amor, atenção, respeito, confiança) dificilmente terá uma realidade contrária para oferecer aos seus filhos. 

E, infelizmente, vejo isso quase todos os dias nos parquinhos e outros espaços públicos que frequento com meus filhos.

Nem mesmo nos locais que por natureza dão oportunidade a experimentação, descobertas, entusiasmo, risos, brincadeiras, nem mesmo ali as crianças têm permissão para serem elas mesmas.

Às crianças não é mais permitido (ou talvez nunca tenha sido) serem autênticas, brincalhonas, manifestantes reais de seus sentimentos.

Mas é urgente entender que as crianças brincam! 

As crianças brincam em qualquer hora e qualquer lugar!

E isso é absolutamente natural e verdadeiro!

Mas a criança não fica quieta de forma natural, não obedece de forma natural, não silencia de forma natural, ela só faz tudo isso se for coagida. 

Uma criança só para de brincar se for forçada a isso, se for constrangida a aceitar que ela atrapalha a sociedade, que as coisas que ela faz são inadequadas ao mundo (adulto).

Já vi pais pedirem para seus filhos não rirem porque poderia incomodar as outras crianças que também estão no parquinho (brincando!).

Onde chegamos?

Chegamos ao ponto crítico, onde falta muito pouco para matarmos definitivamente as crianças e colocá-las em extinção! 

Muitas vezes, quando estou nos parquinhos, vejo os pais envolvidos com seus problemas ou limitações, entregues aos celulares ou reflexões, e que não se envolvem com atenção nas demandas dos seus filhos.

Não estou falando aqui para os pais e mães virarem artistas de circo (nada contra, hein!) e entreterem seus filhos sistematicamente com momentos lúdicos. 

Não é isso!

Mas é, no mínimo, deixar que elas sejam crianças. É não atrapalhar a verdade lúdica que existe dentro delas. É permitir que façam aquilo que nós não temos mais coragem de fazer: brincar na vida.

Nós adultos estamos tão travados, tão mortos, tão sem graça, que somente criando filhos iguais a nós (macambúzios) seremos absolvidos na nossa própria ilusão de felicidade, ou, na ilusão que esconde a infelicidade.

Se queremos um mundo melhor para nossos filhos e para todas as outras pessoas, devemos deixar realmente que as crianças sejam crianças, porque corre o risco de, a cada nova geração, aumentar o número de pessoas irritadiças, infelizes, superficiais, implicantes e intolerantes.

Acredito que uma coisa todos concordam, que a fase da infância é a mais gostosa que já vivemos. Então vamos deixar eles terem boas memorias dessa época ao invés de terem impregnados na sua alma os inúmeros “nãos” para as coisas tão saudáveis e inocentes.

Precisamos relaxar mais desse mundo adulto chato, em nome de uma vida de risos e suavidades.

Raramente vejo momentos familiares cercados de gargalhadas, mas sim cercados de regras sufocantes.

São tanto nãos, nãos, nãos, nãos, para tantas coisas, que na minha mente aparece a imagem de cientistas programando seus robozinhos e permitindo que, no máximo, eles realizem umas dez funções, sendo que a máquina real na sua frente é muito mais complexa e cheia de possibilidades de se tornar alguém melhor que o seu criador.

E não estou falando de exemplos já “manjados” como “Sai daí para não sujar sua roupa!”, estou falando de regulações mais profundas, que marcam muito mais a personalidade de uma criança.

Estou falando das inúmeras limitações do “poder infantil”, do poder ser, imaginar, se soltar, criar, desfazer. De viver ontologicamente aquilo que é verdadeiro. 

Mas infelizmente estamos colocando nas crianças máscaras sociais, e desde pequenos elas aprendem a ser qualquer coisa milimetricamente arranjada, para ser aceita pelos demais adultos, porque na verdade a criança não tem preconceitos inatos, e com certeza não traz a ideia que será melhor se for regrada, para ser considerada adequada ao mundo construído do adulto.

Não deixem as crianças entrarem em extinção.


O quarto de Jack




Hoje quero escrever sobre o longa “O quarto de Jack”, do diretor Lenny Abrahamson. A película não sai da minha cabeça, e já foram inúmeras as reflexões que extraí sobre a maternidade. O filme é baseado no livro de Emma Donoghue, que não retrata uma história real, porém a escritora admite que o drama foi inspirado em tragédias semelhantes.

Para quem ainda não viu o filme, a sinopse traz um menino de cinco anos que vive num cativeiro desde seu nascimento, até que consegue fugir e junto com a mãe precisa se adaptar ao mundo legítimo. 

A história enfoca a vida pós cativeiro, e é justamente aí que surge para mim toda uma leva de questionamentos sobre o poder da maternidade quando o garoto, numa conversa com a avó recém conhecida, confessa a saudade do cativeiro, porque lá ele tinha a companhia constante da sua mãe.

Esse foi o ponto auge do filme. Foi quando meu coração teve a comprovação do significado da faculdade de ser mãe.  


Agora é hora




Já ouviu a música do Arnaldo Antunes “Pequeno Cidadão”? 


Meu filho e eu adoramos! Sabemos a letra de cor e dançamos muito ao seu ritmo.


Porém, desde a primeira vez que ouvi fico meio perturbada, com um sentimento de assombramento em ritmo acelerado. 


Fazemos um verdadeiro massacre com as crianças, e a poesia atenta de Arnaldo sabe muito bem disso.


As crianças de hoje não podem ser autenticas, não podem descobrir seus próprios gostos, não podem experimentar a vida.

Elas têm hora para tudo!


E chegamos ao ponto de dizer qual é a hora (mais adequada) para sua alma ser feliz.


É tanto direcionamento que possivelmente as crianças vão passar uma vida inteira tentando alcançar sua realidade, assim como um cachorro tenta alcançar seu próprio rabo. 


Quando somos ensinados desde cedo a ter vida só quando alguém manda, jamais teremos uma vida de verdade.


Coitadas das crianças que precisam de permissão para se sujar na lama ou para pular no sofá.


Coitadas das crianças que tem como objetivo se transformarem em cidadãos, e pior, que só serão consideradas como tal, quando fizerem parte da tão sonhada massa de obedientes. 


E a frase da música que traz a ideia de que é sinal de educação quando se faz a obrigação?


No meio dos descolados, isso significa saber esperar a hora para tudo, até para se divertir em algo também “descolado”.


A sociedade ainda ama a hierarquia cega e está longe de saber respeitar o outro, que começa dentro de casa, naquela cria pequena e fofa, que precisa urgentemente, como uma árvore, a ser tutorada, senão jamais chegará onde seus donos desejam.


Achamos muitas coisas bonitinhas dentro do “politicamente correto”, porém vale ter em mente que uma boa reflexão traz junto o poder de quebrar o castelo de cristal fedorento!


A imposição massacrante no cotidiano infantil é cruel. E ser considerado gente (pequeno cidadão) somente quando se obedece, matando a alma espontânea, é o maior desserviço que podemos fazer com nossos filhos.





Segue a música:


Pequeno cidadão - (Arnaldo Antunes) 


Agora pode tomar banho,

Agora pode sentar pra comer,

Agora pode escovar os dentes,

Agora pega o livro, pode ler.



Agora tem que jogar videogame,

Agora tem que assistir TV,

Agora tem que comer chocolate,

Agora tem que gritar pra valer!



Agora pode fazer a lição,

Agora pode arrumar o quarto,

Agora pega o que jogou no chão,

Agora pode amarrar o sapato.



Agora tem que jogar bola dentro de casa,

Agora tem que bagunçar,

Agora tem que sujar de lama,

Agora tem que pular no sofá!



É sinal de educação,

Fazer sua obrigação,

Para ter o seu direito de pequeno cidadão,



É sinal de educação,

Fazer sua obrigação,

Para ter o seu direito de pequeno cidadão.







Aniversário assustador


Eu sempre fui da magia, sempre gostei de proporcionar momentos mágicos para quem amo. 

Lembro da infância, adolescência e vida adulta, onde meu entusiasmo era tornar real alguns momentos felizes para as pessoas significativas.

Depois que me tornei mãe, claro que isso não podia ser diferente, e a festa de aniversário do Tatá foi pensada e realizada com muito carinho.

Quando ele descobriu que nascera bem perto da comemoração do halloween, não teve dúvida, desejou fazer uma festa com tudo o que mais gosta: Monstros assustadores!

E escolhemos um lugar pra lá de especial, o Projeto Tamar, um espaço onde amamos visitar, e onde os profissionais são muito gentis e super amigos do Tatá, deixando-o sempre à vontade para explorar e dar vazão às suas curiosidades.

Tudo marcado, convites enviados e toca a fazer junto com os pequenos (sim agora são dois) as decorações da festa. Foi um mês bem intensivo e cansativo, mas super gostoso, tendo como ajudante principal o aniversariante. 



A vida orgânica cheia de chorume



Quando se entra no embalo de alguma teoria, costume ou emoção, é bem raro sair do senso comum e refletir profundamente. O que ocorre em qualquer segmento, inclusive nos meios alternativos.

A ideia do orgânico tomou conta da vida contemporânea, onde se livrar do artificial é a regra. 

Sabe-se que artificial é tudo aquilo que não é natural. Pensamento lógico para você?

Pois a alimentação orgânica deixou de ser natural. 

Sim isso é verdade! 

Porque na plantação do orgânico se coloca uma bomba de chorume “selecionado”, se coloca húmus em excesso, a irrigação da chuva é direcionada, entre outros detalhes.

Vamos refletir?

Há aí um processo natural? Ou ainda vivemos um direcionamento?

Entretanto, esse post não é para falar de horta e sim de crianças.

Educação livre é Educação Livre. 

Educação autônoma é Educação Autônoma. 

Acreditar e praticar o unschooling, mas ao mesmo tempo querer “adubar” essa plantação é não ver o caminho natural. 

O que adianta querer fluir dentro de uma educação com respeito, se ainda assim entupimos as crianças de “oportunidades direcionadas”. Essa ânsia de compromissos é característica da geração dos novos pais, que tiveram na infância um boom de atividades (música, balé, ginástica, informática, inglês, etc.)

Não se quer somente um fruto sem agrotóxicos (ou cultura de massa), se quer um fruto grande, suculento e bonito. 

A necessidade de colocar chorume ainda é grande.

Estamos longe de entender que uma goiaba, numa estrada qualquer, é de fato mais orgânica que uma goiaba vendida no armazém chique!

Precisamos reaprender a viver. 




Parto não é um exercício intelectual, é uma reflexão corporal

Este texto traz um relato de parto e algumas reflexões que nasceram de maneira concomitante à minha filha.

Foram 30 horas desde a primeira contração até o expulsivo. 

Estava com 41 semanas e 2 dias de gestação, e 40 anos de idade, estava ultrapassando a expectativa da normalidade dos padrões de parto brasileiro. Além disso, tratava-se de um PNAC (parto natural após cesárea), ou seja, um parto cheio de possibilidades. 

A ansiedade para a chegada do bebê rondava as pessoas que me cercavam, e obviamente minha alma também estava afetada. Queria muito conhecer minha filha e vivenciar os momentos maravilhosos com um recém-nascido ao colo.



Criança líder



Faz algum tempo que ouço a frase: “A professora disse que meu filho(a) é líder na sala de aula!” 

Até aí (quase) tudo bem (acho eu), mas logo em seguida outras frases completam a ideia que faz brilhar os olhos maternos:

“Esse vai saber mandar, vai ser chefe!”, 

“Ninguém vai conseguir passá-lo pra trás!” 

E uma pior ainda:

“Essa aí vai bater no marido se ele não obedecer!” 

Mas você não viu tudo, agora existem cursos de choaching para crianças, onde o objetivo é justamente esse, torná-las líderes. 

Afinal, ninguém quer um filho que obedeça ou satisfaça aos outros (a não ser as vontades maternas e paternas claro!), mas deseja-se que mande e que tenha autoridade sobre algo ou alguém. 

O filho tem que ser líder! 

Claro que há pessoas e pessoas, e que existem hierarquias, porém a ideia nunca surge na mente como uma relação colaborativa e co-participativa para o bem de todos, mas nutre-se a imagem da subordinação e obediência como algo natural e de direito, independente de como é praticada.

Liderar é influenciar direta ou indiretamente os pensamentos, sentimentos e ações das pessoas que te cercam. 

E nós mães não abrimos mão de atuar assim com nossos filhos. 

Infelizmente muitas vezes as ações de influencias são praticadas com inúmeros exageros, muitas vezes sem bom senso e normalmente de forma traumatizante. 

O resultado dessa infância invadida por valores superficiais está carimbado na sociedade competitivamente cruel.

Crianças que são consideras líderes desde cedo, podem simplesmente estar repetindo os comportamentos que observam dentro do lar, de mando desmedido ou total diretividade. 

O meio para extravasar a autoridade recebida dentro de casa é agir igualzinho com os amiguinhos ou com outros adultos. O que evidencia que algo não vai bem. 

Já as crianças que são lideradas ou submissas, que o paradigma da competição abomina, são crianças que não manifestam seus sentimentos e vontades, e normalmente agem assim, porque são silenciadas ou ignoradas pelos próprios progenitores. 

Nessa situação acaba-se criando um paradoxo, os pais querem seus filhos líderes, mas não dão abertura para eles manifestarem sua personalidade. 

Já por outro lado, algumas crianças caracterizadas como líderes, assim o são, porque tem liberdade para expressar sua voz. Não possui o medo de mostrar a sua originalidade porque não sofre de disciplina desorientada. 

E quando estamos falando de crianças que tem liberdade para serem elas mesmas, normalmente se observa que consideram e respeitam as vontades das outras crianças sem estresses. 

Claro que não dá para generalizar, afinal crianças são seres únicos, mesmo quando vivenciam pressões sufocantes ou vivem dentro de um lar amoroso e respeitoso.

Por isso, acredito que seria interessante mudar o ponto de vista:

Por que não liderar os próprios sentimentos? 

Por que não coordenar os próprios pensamentos? 

Por que não chefiar as próprias ações?

Ser líder de si mesmo é muito mais significativo do que desejar a liderança sobre os outros. 

E como isso pode naturalmente acontecer? 

Ajudando a criança a se conhecer! E isso acontece somente quando corroboramos sua autoconfiança. 

Não diga que seus sentimentos e percepções do seu mundo estão errados, não menospreze seus pensamentos, não diminua suas manifestações, não ignore suas verdades. 

Por que absolutamente tudo o que a criança apresenta é real.

Pode não ser para nossas concepções e valores, mas para ela é a sua vivência, portanto altamente concreta e importante. 

E quando vamos na contramão das suas certezas, estamos cavando não só a cova da baixo auto-estima (por acreditar não ser uma pessoa acreditável), como também estamos transferindo a chance do seu autoconhecimento para um momento no futuro que talvez chegue depois de muito sofrimento.

O Tao Te King trouxe isso a muito tempo, mas ainda não aprendemos!

Aquele que conhece os outros é sábio.

Aquele que conhece a si mesmo é iluminado.

Aquele que vence os outros é forte.

Aquele que vence a si mesmo é poderoso.

Aquele que conhece a alegria é rico.

Aquele que conserva o seu caminho tem vontade.

Seja humilde, e permanecerás íntegro.

Curva-te, e permanecerás ereto.

Esvazia-te, e permanecerás repleto.

Gasta-te, e permanecerás novo.

O sábio não se exibe, e por isso brilha.

Ele não se faz notar, e por isso é notado.

Ele não se elogia, e por isso tem mérito.

E, porque não está competindo …

Ninguém no mundo pode competir com ele.

Você não tem que ser melhor que ninguém a não ser você mesmo.




Temos que...


À partir do momento que somos concebidos, já “temos que...”

Temos que fazer inúmeras coisas para alcançar nossos objetivos ou temos que ser, no sentido de nos tornar, outras tantas ideias pré-concebidas que normalmente moram no mundo ideal.

Isso nos é repassado desde o primeiro suspiro, e vai até o ultimo! 

E temos que agir, querendo ou não, dentro de determinados caminhos para nossa própria sobrevivência social. Assim funciona o mundo dos seres pensantes.  

Carregamos um peso imenso, e a lacuna do inalcançável se estende pela vida à fora. 

Porém, desde que saímos da barriga da nossa mãe, o patamar da plenitude desejada jamais será obtido. Isso se deve simplesmente porque o impossível mora nas projeções das construções dos ideais humanos. 

Então, já que é inevitável materializar o plano, o roteiro, o desejo da idealização traçada para uma vida, porque sofrer para chegar a um efeito que será precário, insuficiente, ilusório e desviante?

E o pior, além de termos que fazer inúmeras coisas para nós mesmos, ainda temos que conquistar objetivos impostos pelos outros, normalmente nossos progenitores, que esperam resultados que nem sempre dizem respeito as nossas aspirações reais.

Com isso vamos realimentando a necessidade global de agir dentro de ações positivas, para resultar nas coisas boas da vida, como felicidade, amor, paz, harmonia e tantos outros valores dignos de uma vida esplêndida. 

É claro que tudo isso é bom, principalmente quando falamos de um planeta diverso, cheio de conflitos. Todavia, as boas intenções acabam engessando a liberdade da alma individual, e a obsessão para chegar a uma vida perfeita se torna cruel.

As preocupações crescem e são diversas, cheias de regras e com consistente ânsia de aceitação. 

Você acha que não? Veja só alguns exemplos que nem nos questionamos.

Temos que ser felizes, para sermos bem sucedidos nessa encarnação.

Temos que ser saudáveis, para nosso corpo viver muito tempo.

Temos que ser inteligentes, para conseguirmos estar acima da média.

Temos que inventar e produzir, para sermos história na humanidade.

Temos que ser amados, para não nos sentirmos indesejáveis.

Temos que orar (ou qualquer coisa semelhante), para termos ajuda dos céus.

Temos que meditar, para ter paz de espírito.

Temos que ser bondosos, para alcançarmos a plenitude espiritual. 

E por aí vai. 

Como disse, trata-se obviamente de coisas boas, mas todos esses quesitos são objetivos que “temos que”, e nos é exigido desde tempos remotos. Infelizmente os muitos que não conquistam tais aspirações (e são muitos mesmos) sofrem demasiadamente. Um sofrimento que vem pela cobrança de não ser capaz de estar dentro do padrão universal de plenitude.

Se as cobranças das necessidades universais são pesadas para qualquer um, imagine aquelas que estão distorcidas dentro dos valores contemporâneos habituais e que surgem dentro da cultura da escola/profissão/mercado. Uma cultura que abraça a grande maioria das pessoas, e que desde muito cedo vai nutrindo um paradigma complexo que ultrapassa os muros das instituições e devora as vidas cotidianas.

Quando estamos dentro de uma instituição de ensino, dentro de um sistema regrado onde ser bem sucedido socialmente é uma obrigação, a competição se torna o motor, e a gasolina são as constantes exigências vindas primeiramente de fora, e depois através da auto cobrança.

E aí a largada das neuroses se inicia e não para mais:

Temos que matriculá-lo no inglês, porque ele precisa ter um bom cargo na empresa;

Temos que presenteá-lo com um tablet, porque ele precisa estar atualizado;

Temos que inscrevê-lo no melhor cursinho, porque ele precisa entrar numa federal;

Temos que matriculá-lo num coaching kids, porque ele precisa aprender a ser líder;

Temos que colocá-lo no taekwondo, porque ele precisa aprender regras;

E não estamos falando só das instituições tradicionais, dentro de uma educação alternativa, muitos pais também são propositivos:

Temos que evitar a televisão, porque ele precisa desenvolver a criatividade;

Temos que colocá-lo para dormir cedo, porque quem dorme tarde não desenvolve habilidades;

Temos que colocá-lo na musicalização, porque precisa ser sensível e talentoso;

Temos que levá-lo aos museus, porque precisa desenvolver a intelectualidade; 

Poderia discorrer inúmeros exemplos, mas não vem ao caso, já que a ideia principal está presente: Direcionar, condicionar, determinar.

E o que a educação livre, desescolarização ou unschooling (chame como achar mais bonitinho!) tem a ver com tudo isso?

A educação autônoma (estou preferindo ultimamente essa nomenclatura), é uma educação que faz o caminho de dentro para fora, não é uma necessidade externa, onde você pensa de forma condicionante, simplesmente porque a preocupação não está no objeto final, no produto, no resultado, no utilitário, mas sim no presente, no prazer, no júbilo de simplesmente ser. 

E aí damos de cara (nós pais) com o maior desafio: quebrar nossa vontade intrínseca de desejar para nossos filhos um caminho a ser percorrido.

Quando se vive a educação livre, não significa que as barreiras serão totalmente quebradas, e que aquelas lacunas universais serão preenchidas. Com certeza teremos o último suspiro dentro dos ideais, porém tenta-se minimizar os prejuízos de viver num mundo pronto e cheio de limitações aparentes.

Quando não se exige, não há cobranças, não há condicionalidades, e se pode respirar com certo alivio para genuinamente fazer por fazer, ser por ser, porque é bom, porque se gosta, porque aquilo é real, porque sem aquilo seria impossível viver, mesmo que aos olhos da sociedade não seja produtivo ou traga resultados vantajosos.

Sabe aquela questão, que ajuda a entender: “Caso você tivesse tudo, e não precisasse se preocupar com nada, o que você faria no seu dia-a-dia?” O que seria indispensável para sua alma? O que você faria por horas, dias e anos sem ficar enjoado? Aquilo que está dentro de você e que ninguém, ou nada te pede para fazer? 

No unschooling, você não “tem que”, não faz isso ou aquilo para chegar no futuro prometido, você vive aquilo que é intrasferível para sua consciência. Você não se dedica a algo porque seus resultados serão reconhecidos e aceitos, você se dedica porque aquilo é importante para o seu dia. 

Você estuda inglês simplesmente porque quer entender a outra língua;

Você faz taekwondo porque quer seu corpo dentro daquela dinâmica;

Você assiste televisão porque quer se distrair;

Você vai ao museu porque deseja apreciar a arte.

Você não vai viver a desescolarização porque vai se tornar melhor que os outros (muitos criticam a proposta com esse argumento), você vai ter uma educação autônoma porque acredita que não há outro jeito de viver! 

Tirar o peso das costas dos resultados que precisamos obter seja talvez o jeito mais fácil de conseguir a tal felicidade, mas no aqui e agora, e não no futuro condicionante.




A trindade na infância



Na tradição hinduísta, o mundo natural se manifesta através de três atributos diferentes e complementares, todos eles advindos de um “Criador Supremo”, portanto tais atributos também são entes criadores.

Estas energias manifestadas são conhecidas por deuses e se chamam: Brahma, Vishnu, e Shiva.

Cada um traz consigo características e energias singulares, e que podem ser correlacionadas às fases da vida, inclusive à primeira infância.

Essas forças regem o universo físico, nossa personalidade e padrões de pensamentos do dia a dia, dando procedência às nossas realizações, fracassos, alegrias, infelicidade, saúde, doença e tantos outros sentimentos e comportamentos cotidianos.

Conhecer tais potências pode nos levar a compreender inúmeras atitudes de nossos filhos e ajudar a escolher harmoniosamente a forma mais suave de lidar com cada uma delas.

Brahma é a energia criadora, ele é o deus que inventa, idealiza e fecunda o universo. Ele é possuidor da imaginação e do impulso criativo, inspirado pela pureza e tranquilidade.

Vishnu é a energia mantenedora, é ele quem vai sustentar, nutrir, perpetuar e proteger o universo.

Shiva traz a energia transformadora, é o deus que vai renovar, modificar e decompor o universo, para que possa estar pronto para uma nova fase.

Todas essas energias são essenciais para materializar, ou dar vida ao mundo como o conhecemos. O começo, meio e fim são inerentes a absolutamente tudo o que existe.

Esse fim entretanto, é o recomeço, é o ciclo que sozinho se faz presente na natureza para dar vida e significado a sua existência.

Percebendo a afinidade dos deuses com as crianças, no seu brincar e viver, podemos acionar o potencial natural, envolvido na dinâmica energética, e com isso conseguiremos escutar as necessidades concretas de cada fase da criança.

O resultado direto é um relacionamento afetuoso, vivenciado de forma verdadeira e mais próxima do entendimento da essência daquele pequeno indivíduo.

Muitas crianças, inicialmente, podem apresentar o comportamento pendendo mais para uma, ou outra energia, todavia, na sua infância percorrerão os diferentes aspectos em sua potência.

Uma criança Brahma atua envolvida em muita fantasia. Adora criar histórias e experimentar diferentes personagens, com momentos de pura inspiração. Suas atitudes são de afeto desinteressados, possui uma alegria tranquila e até mesmo facilidade de uma vivencia calma e meditativa.

É uma criança que está apta ao conhecimento, com uma inteligência cercada de vasta clareza mental. É aquela criança que tem coragem para experimentar e descobrir. 

Gosta de correr, de escalar, mas também de parar e observar um pequeno inseto, só assim poderá ver tudo ao redor e abraçar suas curiosidades que gerarão novas invenções.

Também é uma criança bondosa, que vive em cooperação, em compaixão, que sente a alteridade, mesmo que de forma sutil. 

A calma normalmente prevalece, mesmo nos momentos de agitação, pois tem a segurança adequada para saber que sua energia e sua potência podem, devem e têm a abertura para se fazer presente.
 
São crianças que adoram iniciar seja lá o que for, entretanto nem sempre gostam de dar continuidade ao que estavam fazendo. 

São essas crianças que começam a fazer um bolo com a mamãe, um desenho na escola, uma arrumação no quarto, mas não querem terminá-los, deixando as coisas pela metade. 

Resta saber se trata da falta genuína do interesse na atividade proposta, ou se, uma pequena e pontual ajuda, com intenção de mostrar a possibilidade de chegar ao fim da atividade, é o suficiente para despertar o sentimento de criação contínua. 

Afinal, cada ingrediente colocado na massa de um bolo é uma situação nova. Os instantes são compostos de eternos momentos únicos.

As qualidades da criança que predomina o deus Brahma incluem a integridade, a capacidade de perdoar e a ausência da raiva e do ciúme. Esta criança é capaz de ter uma concentração verdadeira, desde que seja livre para praticar suas descobertas.

Já a criança onde se predomina a energia de Vishnu, o deus mantenedor, tem como objetivo nutrir seu mundo, para que ele possa perpetuar de forma protegida e segura. 

Como um fruto que protege a semente para possibilitar que a árvore majestosa chegue ao esplendor da sua força, assim nunca afastar-se-á do governo de seus atributos.

Desta forma ela pode ser vista como a criança que apreende e prende seus maiores desejos bem de perto, de forma quase sufocante, porque só assim garante a estabilidade daquilo que se formou.

É aquela criança que tem muito ciúmes das suas coisas, dentre elas, brinquedos, objetos pessoais e claro, seus entes queridos.

É aquela criança que não desgruda dos braços da mãe mesmo no meio de um parque de diversão.  Que não gosta do contato de estranhos, que fica inibida às novas situações e que de certa forma acaba deixando de trocar experiências com tudo o que surge ao seu redor.

Também pode ser analisada como uma criança preguiçosa, sonolenta, confusa, resistente. Com dificuldades de distinguir entre o certo e o errado.

Pende para satisfazer seus desejos, mesmo que isso signifique a anulação completa do outro.

Isso se dá porque a criança precisa, e tem a necessidade verdadeira de cuidar do seu mundo, daquilo que fora construído de forma consciente e inconsciente ao seu redor. 

Muitas vezes para proteger e garantir o amor que lhe foi dado em abundância, ou, e principalmente a escassez desse amor, ela faz um pouco de tudo para preservar aquilo que lhe fora dado. 

Esse amor, ou a falta dele, pode ser entendido também como segurança, respeito, confiança, liberdade. É aquela criança que não sabe muito bem o que fazer, por isso faz somente uma coisa: preserva.

Para crianças que estão nesta fase dos deuses da trimurti, deve se lembrar que acima de tudo o respeito ao momento vivido é a maior forma de passar tranquilamente por esta fase do meio, ou seja, pelo meio do caminho, que já teve um procedente e que a lançará para outro patamar.

Essa criança está correta em manter aquilo que lhe dá vida, e somente vivenciando sua verdade, é que terá forças para passar a ilusão do apego, e se jogar a fase posterior de transmutação. 

Derrotar a ilusão do medo, da perda e da falta de algo só é possível dando o amor necessário para que ela tenha segurança para vencer esta fase. 

Ela precisa nutrir e proteger sua semente agora, alimentando suas forças para que depois tenha a confiança suficiente para se jogar ao chão e dar início ao broto que se tornará a grande árvore.

Assim como o deus Vishnu que tem uma forte relação com a água, a criança dentro desse atributo tem uma forte relação com a fase uterina, onde a água propiciava segurança. 

Entretanto, é do umbigo de Vishnu que nasce a flor de lótus, símbolo da sabedoria suprema, e de onde emerge Brahma, o criador do universo. Somente dentro do pacto de respeito entre mãe e filho, entre essa união umbilical, que surgirá a bravura para o desenvolvimento da luz interna de ambos.

A criança Shiva, por sua vez, nunca fica em paz, está sempre envolvida numa energia de explosão, seja ela de raiva, de exploração do mundo, de ansiedade, de impaciência, de alegria. Tudo isso gera um desejo intenso, o que acaba fazendo com que a criança seja inquieta e descontente, dando origem a uma contínua atividade.

A criança dentro da energia de Shiva não consegue permanecer sentada, acomodada. Ela precisa ter sempre algo para fazer, seus olhos estão sempre à procura de alguma coisa, sua atenção nunca se encontra num único ponto, tem interesse em várias coisas e nunca fica muito tempo em qualquer atividade com entrega concentrada.

Todavia seu entusiasmo gera energia criativa, e coragem física, ela avança muito mais na totalidade do seu desenvolvimento quando está predominantemente nesta fase.
 
Ela também adora dominar e deseja ser capaz de ter o poder sobre os outros. É muito apegada aos sentimentos e seus anseios precisam ser satisfeitos, caso contrário a vida dos que estão ao seu redor torna-se deplorável. E quanto mais ela consegue satisfazer seus os desejos, mais ela quer.

Também é uma criança que conhece o mundo intensamente através dos seus sentidos, portanto ela pega, joga, chuta, agarra, grita, morde. Precisa ir até o fim para saber o que há e o que é, a essência das coisas.

Ela transforma tudo o que está em seu caminho, se há arrumação, ela desarruma, se há ordem, ela enfrenta, se há composição ela canta em outro ritmo.

Querer que ela aja de determinada forma, da forma que o outro impõe, nunca dará resultados positivos, ela precisa, por ela mesma, descobrir o mundo, mesmo que seja muitas vezes de forma prejudicial.

Para estas crianças nada mais que tentar diminuir a pressão, afinal elas vivem dentro de uma energia cercada de forças internas.

Exigir, impor e muitas vezes impedir que sua natureza se manifeste da forma como é acaba perturbando mais ainda esse poder. 

Apaziguar, trazendo para o adulto a calma e a presença interna, pode resultar no equilíbrio necessário. A troca entre mãe calma e filho agitado é a conexão existente na simbologia do yin e yang, onde os opostos se unem para manter o sistema em equilíbrio e harmonia.

Não apenas no comportamento diário, como também nos momentos de brincadeiras, podemos ver claramente em qual atributo nossos filhos se encontram.

O brincar de uma criança Brahma se dá quando ela inicia as brincadeiras, chama os amigos para fazer parte, orienta as fantasias, cria novos jogos, novos modos de falar e se comunicar, agregando cada vez mais o seu entorno.

As crianças que brincam dentro da energia de Vishnu ficam concentradas um bom tempo em uma determinada atividade, elas curtem o momento sem se preocupar como que está acontecendo ao redor e preferem brincar com seus pais, ou amigos que passem segurança, preferem sentir com magnitude os detalhes do seu brincar.

As crianças dentro da energia de Shiva disputam o comando dos jogos, preferem criar suas próprias regras, e em muitos casos destroem as brincadeiras ou brinquedos que estão por perto. Vale lembrar que não se trata de um comportamento ruim, mas apenas de uma criança que prefere virar as situações do avesso para descobrir todos os aspectos existentes das relações.

Não só na infância, como também no restante de nossas vidas, passaremos repetidas vezes por todos os atributos. Em alguns momentos prevalecendo somente uma energia, em outros tendo duas ou três características atuando juntas.

Se é incontrolável tais vivencias na vida de nossos filhos, a reflexão se dá em conseguir respeitar cada momento, em aceitar seu filho do jeito que ele se apresenta.

E quando essa aceitação acontece, quando não há conflito e motim para a troca de comportamento, para agradar aos pais ou sociedade, então só ai é que se pode instituir uma relação amorosa e harmoniosa.

É na aceitação verdadeira do outro que se consegue vivenciar o respeito pela verdade essencial, mesmo que ela ocorra em breves espaços de tempo no desenvolvimento infantil. 

Se cada fase for vivida com liberdade, para se fazer e ser, dentro da sua potência, a criança terá o respiro para se conhecer em profundidade e entender suas escolhas e reações. Podendo desta forma construir naturalmente e tranquilamente sua força, enquanto um ser cheio de energia e cheio de propósito.

E não se esqueça, assim como esses atributos são relacionados aos deuses, seu filho também é um deus, ele cria, mantém e transmuta o mundo que está surgindo dentro dele. 

Seu filho é um deus criador. E assim como os hinduístas veneram seus deuses, mesmo se apresentando na combinação de aspectos diferentes, devemos reverenciar nossas crias, porque o respeito é a maior prova de amor que podemos gerar dentro de nós.

E quais são suas reflexões sobre este assunto? Vamos dialogar?  






Brincando de mandala com a vida


Certa ocasião preparei uma brincadeira para meu filho que deu um enorme trabalho. Tive que pensar como realiza-la, juntar os materiais por vários dias, comprar alguns outros que faltavam, e claro, segurar minha ansiedade para o dia certo da brincadeira.



Esperei ele dormir, e fui correndo preparar tudo. Levei um bom tempo olhando o resultado, só imaginando o que ele poderia aprontar e se divertir com toda aquela oferta.



Quando finalmente o momento esperado (por mim) havia chegado, meu pequeno olhou tudo aquilo e não demostrou nenhuma reação de euforia. Calmamente foi pegando uma e outra coisa, e numa ação rápida desmanchou tudo o que eu havia feito.



Não prestou atenção nos detalhes, não entendeu a funcionalidade dos objetos e não se interessou em explorar nada daquilo.



Só tive um pensamento: “PQP”! Sim porque sou uma pessoa cheia de sentimentos, um ser adulto que se frustra quando aquilo que deseja não chega a acontecer. Fechei os olhos, respirei bem fundo, balancei a cabeça lentamente, e sentei bruscamente no chão, tanto para ver o que ia acontecer, como também um resultado automático do meu corpo numa tradução de: “Foi tudo por água abaixo!”



Depois do meu filho ter detonado meu trabalho e minhas expectativas, veio para o meu colo pedindo para fazer outra coisa. Eu olhei nos olhos dele, senti seu abraço, fique alguns segundos sem silêncio corporal, e resolvi levantar, atendendo seu pedido.



Conforme eu andava para um outro local, mil pensamentos passavam pela minha cabeça. Coisas como: “Nunca mais vou fazer isso”, “Ele ainda não está pronto para tanta coisa”, “Eu exagerei com ele”, “Caralh..... que merd...”, “Por que ele não curtiu?”, e principalmente “Onde foi que eu errei?”.



O dia se passou, outros dias vieram, e a tal cena e sentimentos não haviam saído de mim. Foi então que lembrei de uma cena, que vi pessoalmente numa exposição Tibetana aqui em Florianópolis.

Um monge na sua entrega de construir uma mandala de areia. 

Aquela arte, meditação e realização espiritual que leva horas para ser concretizada, e segundos para ser destruída.


O monge que fazia a exposição disse: “Preparar uma mandala é como realizar uma longa meditação. É uma forma de entender melhor nossa existência”. 

Ele estava completando 50 horas de trabalho artístico e meditativo.



Este tido de mandala é construída com pó de mármore,  trituradas das pedras que cercam os rios da cordilheira do Himalaia. O pó é lavado, secado ao sol e misturado com pigmentos não-tóxicos para formar as cores.









Um instrumento é usado para que os grãos de areia caíam sobre o desenho feito previamente. A areia escorre por um minúsculo buraco com a vibração do contato entre os instrumentos. Resumindo: Dá muito trabalho para faze-la.


Depois de tudo pronto, chega a hora de desfazer aquela ilusão.



O mesmo monge diz: “Este é o principal ensinamento da mandala de areia: tudo na vida é impermanente, tudo faz parte do ciclo de nascimento, morte e renascimento. Na nossa existência, tudo muda constantemente: o fraco se transforma em forte, a beleza em feiura, a pobreza em riqueza ou a saúde em doença. Quando desmancho uma mandala e misturo todas as areias estou apenas reproduzindo a vida.”



Meu filho ainda não sabe nada disso, pelo menos na forma intelectual como entendemos. Mas ele sabe de algo que nós adultos esquecemos, a vida é aquilo que queremos que ela seja.



Não era aquilo que ele desejava naquele momento, não era meus desejos e expectativas que ele vivenciava, não era meus sonhos que ele sonhava.



Ele aceitou brincar, por alguns poucos minutos, interagiu com tudo aquilo, mas da sua forma, conforme seus interesses, de acordo com sua vontade. Sua vontade foi misturar e transformar tudo.



É bem complicado para nós pais aceitarmos que nossos filhos não entrem nas nossas brincadeiras, nas nossas regras, no nosso paradigma. 


Mas já parou para pensar que nossos filhos podem ser melhor que tudo isso? Que eles podem ser melhor que nós mesmos? Pelo menos é isso que eu desejo!


Quando me deparei com esses pensamentos e sentimentos, refelti: "Quem sou eu para dizer como ele deveria ser e viver no mundo?

Ele pode ser melhor que tudo aquilo que eu acredito, que tudo aquilo que faço de bom e de ruim. Ele pode ser melhor que meus defeitos, preconceitos, estagnações. Fazer melhor que as minhas qualidades e bondades. 

Por isso, porque enche-los com nossas ilusões? Por que limitá-los a ser algum tipo de réplica nossa?



É difícil acabar com as expectativas pessoais, quem dirá com as expectativas relacionadas à educação que damos aos nossos filhos.



Por isso, nada melhor que lembrar da imagem de uma mandala tibetana. Tudo que existe se transforma do jeito que deve ser, dentro da sua verdade essencial.

E para finalizar, não deixei de brincar com meu filho, tivemos outros momentos de muita entrega juntos. Porque é assim que tem que ser, continuar construindo novas mandalas na vida!












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